Com meu
livro, meus óculos, meu chocolate quente - apesar de preferir morango,
chocolate se torna um amante em dias chuvosos - e meu cobertor. Esse tempo frio
me faz lembrar um passado bem presente na minha vida.
Aquela velha história de que alma gêmea vem, cumpre seu papel e se vai. Talvez
seja isso mesmo.
Confesso
que o futuro me assusta, mas quero que ele chegue logo. Isso é estranho, louco
e confuso.
Era triste saber que a felicidade tinha data e hora marcada para acabar. Era e
é triste olhar pro sofá e não vê-lo jogado assistindo esporte e me explicando
sobre futebol ou então vê-lo chegar em sua bicicleta emprestada, modelo de mil
novecentos e tarará, com um sorriso de orelha a orelha entre aquela barba
aveludada mal feita que tanto me encantava. A simplicidade era uma qualidade.
Ouvi-lo falar também era um prazer. Seu sotaque era tão lindo quanto a barba
mal feita. Já falei que a barba dele era linda e aveludada? Eu, sempre tagarela
e de sotaque maranhense, tentava falar compassadamente, com gestos e
articulações.
- “Não
precisa disso tudo! Você fala como se eu tivesse 05 anos.”
É, ele era um pouco grosso às vezes, e isso me deixava com vontade de “rodar a
baiana”, mas me controlava, afinal, não queria que ele saísse com uma má
impressão dos brasileiros.
Acho que
ele foi o único que me respeitou. Acho não, ele foi o único e respeitou até
demais! Ele sabia cortejar uma mulher e é tão prazeroso isso, saber que fora
daqui existem homens de verdade.
Ele chegou na época em que eu estava desacreditada dessas coisas melosas. Ele
foi uma espécie de peteleco.
O primeiro contato corporal foi quase perfeito. Talvez se eu não tivesse
tremido tanto, teria sentido melhor sua barba no meu rosto. O tremelique foi
tão grande que assim que ele foi embora, sai pulando pela casa. Nunca senti uma
felicidade tão intensa como naquele dia. Era uma coisa que eu queria muito.
A primeira mancada também foi inesquecível. A música Diamonds da Rihanna tocava
no rádio e eu não sei fazer nada sem cantar. Escutei por alto sua voz vindo do
pátio...
- "Estou louca! Não, meu Deus, é ele mesmo."
Eu não sei falar inglês, a única coisa que eu aprendi foi “I Love You”, mas
isso não faz parte do meu vocabulário, é inútil no meu dia-a-dia e não tem na
música. Cadê o maldito saco do pão?
Não dá
pra ligar convidando pra um jantar ou cineminha mais tarde. O que foi minha
felicidade por pouco tempo não está em outra cidade, ela está em outro
continente, no outro lado do mundo, e isso dificulta mais.
Queria acabar com algumas leis, sugar os oceanos, dá um chute nas milhas e
trazê-lo pra perto. Quero pular alguns anos para tê-lo por perto de novo.
Porque ele tem e teve o poder de não me deixar perder o belo de vista.
A esperança que tenho em encontrá-lo outra vez é grande. Até pensei que seria
passageira, mas não. Os três primeiros meses foram amargos, tristes e regados a
lágrimas. Meus olhos nunca viram tanta água. Ele prometeu e ainda promete que
irá voltar e eu continuo aqui, esperando. Não sabemos quando, mas eu sei que
ele volta. E o nosso reencontro, eu sei, vai ter faísca.